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Cultura

“QUEM NÃO CONHECE, TÁ PERDENDO”

Projeto “Coco de Quinta” resgata o bairro Jaraguá enquanto ponto de encontro da cultura popular e reúne gerações para celebrar o coco alagoano

Por Thauane Rodrigues* ESTAGIÁRIA | Edição do dia 07/06/2022

Matéria atualizada em 07/06/2022 às 14h42

 

Foto: Divulgação
 

Ao som do pandeiro, das batidas da alfaia e das fortes pisadas dos pés dos brincantes, as quintas-feiras em Jaraguá, bairro histórico de Maceió, estão cada vez mais repletas de cultura e arte popular. Com muito coco, de roda, umbigada e até psicodélico, os alagoanos têm aproveitado o Coco de Quinta para manter vivo o legado cultural e ancestral de Alagoas.

Seja cantado dentro dos terreiros, nas festividades juninas, nas rodas da cultura popular ou nas periferias que abrigam os ensaios dos cocos estilizados, o trupé de coco é dançado desde a época dos quilombos e sustenta-se até a atualidade. Hoje, o coco alagoano se reinventa no BarZarte, às quintas-feiras, a partir do compartilhamento dos aprendizados entre artistas e brincantes.

De acordo com Aovinho, brincante e artista local que participa ativamente das quintas-feiras de coco, o Coco de Quinta surge no BarZarte, inicialmente como um movimento espontâneo, idealizado pelo artista alagoano Marcos Topete.

“A ‘retomada’ do coco que ocorre nas noites de quinta se dá através do repasse dos saberes mais tradicionais: os cantos, que são ouvidos e respondido pelo público; os passos tradicionais, como o quarenta, quarenta arrebatido, xipapá, que são ensinados nessas mesmas noites pelos cantadores e pelo Topete (que é um exímio dançarino e sapateador), e até mesmo as histórias contadas no palco aberto, de como a tradição surgiu, como se davam as festas, o que eram as tapagens de casa, enfim”, conta Aovinho.

“Inevitavelmente, com essa constante do movimento ser todas as quintas, faz com que o BarZarte acabe se tornando uma espécie de incubadora de novos talentos para o coco, e é disso que precisamos para o Estado: mais ‘coquistas’ sejam eles cantadores, tocadores, pisadores, respondedores ou interessados que possam se tornar pesquisadores do assunto um dia. O maior fundamento do coco de quinta, na minha opinião, é mostrar pra quem for que o coco tem o seu valor, quem não conhece tá perdendo”, completou o artista.

Para o mestre de coco Jurandir Bozo, a iniciativa do Coco de Quinta é muito importante para manter o coco de Alagoas cada vez mais vivo.

“Lá o coco volta a ter sua característica de festa, numa configuração onde todos podem participar e dançar, na perspectiva de ser uma manifestação viva, mantendo suas características e absorvendo as rupturas propostas pelo tempo, podemos ter o coco alagoano cada vez mais vivo. Iniciativas como essas vêm para fazer o coco dar sinal de vida e pedir socorro, como se gritasse em cantorias - Eu ainda estou vivo!”, disse ele.

TRADIÇÃO

Com palco aberto e uma grande roda sendo formada pelos ‘coquistas’, o coco alagoano tem ganhado as ruas do tradicional bairro do Jaraguá através dos cantos entoados, dos passos de dança repetidos pelos brincantes e das histórias compartilhadas.

Fascinado pela cultura popular desde quando assistia aos ensaios do Coco de Roda Xique-Xique, em sua rua, durante a infância, o brincante Aovinho conta que é satisfatório levar a cultura popular para as ruas de Jaraguá.

“Hoje, sendo um dos tantos que promovem a continuidade dessa prática popular que é o coco alagoano, me reconheço num local de dever, missão e responsabilidade para a continuidade dessa tradição autenticamente alagoana. O massa de estar atualmente fazendo um movimento desses no Jaraguá é que lá é onde se encontram pessoas dos mais diferentes estilos e ‘nichos’, não é todo mundo que sempre teve contato com o coco na infância, não são todos que possuem essa referência, então é também um dever apresentar para essa galera de outros rolês o nosso querido coco”, destacou ele.

Segundo o mestre Jurandir Bozo, ainda é preciso fazer muito mais para dar visibilidade ao tradicional coco alagoano.

“Ainda temos muito a fazer para dar a visibilidade devida que a manifestação merece ter e o que tem acontecido no BarZarte no coco de quinta mostra essa força. Lá, no Bazarte, podemos promover o coco alagoano, pois ainda precisamos entrar mais nas questões da nossa identidade, nisso, Topete é também muito importante, pois ele tem repassado os conhecimentos que recebeu de nossas tradições aos brincantes que vão para lá e ele faz questão de mostrar e ensinar”, disse ele.

RESISTINDO PARA EXISTIR

Sambando muito coco, a juventude tem estado presente na manutenção e reinvenção do coco alagoano. Seja dançando nos grupos estilizados ou ingressando nas casas de cultura, muitos jovens têm aprendido não só sobre a cultura popular, mas também sobre a resistência.

“Somos do Estado onde ocorreu o Quebra de Xangô de 1912, e isso deixou feridas profundas que se arrastam até os dias de hoje. Toda manifestação periférica, do povo preto e indígena é vista com olhar atravessado. No máximo, é lida como mero ‘folclore’, quase como algo a ser exibido numa prateleira para turista ver. O coco está presente e muito vivo em Alagoas, principalmente nas periferias de Maceió”, disse Aovinho.

“Há na sociedade alagoana um processo de marginalização de todas as manifestações populares que ocupam majoritariamente as nossas periferias. Os grupos de coco costumam ter muitos integrantes, e dependem de uma logística enorme para sua sobrevivência, não é fácil mesmo”, completou o artista.

De acordo com Jurandir Bozo, é muito importante ter um espaço onde o jovem possa interagir de forma divertida com sua identidade, sendo essa a fórmula mais acertada para manter a cultura popular e a sua continuidade.

“Essa é a essência do coco, a brincadeira, a festa. Enquanto a cultura for tratada somente como matéria de estudo e preservação, ela vai ficar cada vez mais distante dos jovens, então vamos todos festejar o coco e aprender a pisar nossos trupés indo ao BarZarte às quintas-feira”, finalizou o mestre.

*Sob supervisão da editoria de Cultura

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