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Cultura

ORGULHO DA PRÓRIA HISTÓRIA

No Dia Mundial do Orgulho LGBTQIA+, pesquisadores anunciam livro com registros de mais de 30 anos do movimento em Alagoas

Por Maylson Honorato e Thauane Rodrigues* | Edição do dia 28/06/2022

Matéria atualizada em 28/06/2022 às 17h00

 

Foto: ACERVO PESSOAL/MARCELO NASCIMENTO
  

Eles querem romper silêncios e interromper o apagamento da história das pessoas LGBTQIA+ em Alagoas. Para fazer isso, Elias Veras e Marcelo Nascimento reúnem 32 anos da resistência dessa comunidade no livro “Orgulho LGBTQIA - Acervos, memórias e escritas de si - Alagoas (1990-2022)”. O compêndio reúne registros históricos, reportagens e conversas sobre e com personagens, organizações, coletivos, aliados e aliadas que protagonizaram as lutas LGBTQIA+ no Estado.

O lançamento, previsto para o segundo semestre, integra o projeto “Acervo, afetos e memórias LGBTQIA+ em Alagoas”, desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em História, Gênero e Sexualidade (GEPGHS), do Curso de História, da Universidade Federal de Alagoas, com o apoio do Centro de Pesquisa e Documentação Histórica (CPDHis) da Ufal. A iniciativa ainda prevê o lançamento de uma exposição e um documentário com o material pesquisado para o livro.

Doutoranda em Linguística, Cíntia Ribeiro, mulher lésbica e editora do livro, detalha que a publicação apresenta trajetórias, narrativas e acervos marcados pela LGBTQIfobia – a exemplo do assassinato de Renildo José dos Santos, vereador homossexual de Coqueiro Seco (AL), morto em março de 1993. Esses relatos de violência, de silenciamento e de resistência de gênero, sexualidade e raça fazem uma cartografia política e afetiva de luta em Alagoas.

“A cada relato, nos vemos diante de um exercício que implica pensarmos na identificação das fronteiras (cerradas e abertas) aos corpos LGBTQIA+ em Alagoas. Oralidade e escrita trazem margem e centro da construção da história do Movimento Gay reposicionados, não apenas em função do grau de abertura político-discursiva do lugar Alagoas, mas, essencialmente, ao modo como esse lugar autorizou ou desautorizou a constituição das subjetividades de gênero ao longo de sua história”, explica a editora.

“O convite para a edição do livro me fez repensar o sentido de centro e periferia , enquanto territórios fronteiriços capazes de autorizar e interditar corpos”, afirma Cíntia Ribeiro, ao defender a pertinência do lançamento no Brasil atual. “Nesse aspecto, o livro tem o funcionamento ritualístico: abrir caminhos, desemperrar ferrolhos discursivos. Essa é a relevância do trabalho”, diz.

A obra tem como ponto de partida, a criação do Grupo Gay de Alagoas (GGAL), fundado em 1997. Marcelo Nascimento, um dos organizadores, foi o primeiro presidente do grupo, que, desde então, é a referência de luta e representatividade da comunidade LGBTQIA+ no estado. Apesar disso, e da maioria dos entrevistados estarem, de muitos modos, relacionados a esse grupo pioneiro, a obra amplia esses marcos e redes, recorrendo aos acervos de outras organizações e coletivos LGBTQIA+ alagoanas, às narrativas e escritas de outras personagens importantes dessa luta e atualmente, como é o caso da escritora Isis Florescer, que, recentemente, se tornou a primeira mulher trans alagoana a lançar um livro.

“A idealização de uma publicação que registra, conversa e divulga esse e outros acontecimentos rompe com um silêncio histórico sobre as lutas de gays, lésbicas, travestis e transexuais no Estado. Se apropriar dessa memória e história é uma forma de lutar contra a LGBTQIfobia”, afirma Elias Veras, um dos organizadores do livro.

“Penso que o desafio deste trabalho está entre equilibrar identificação e desidentificação de corpos num tipo de balança sociohistórica de base sexista e heteronormativa. É desse lugar de dor e de força ancestrais de gênero e de raça que o livro abre espaço interseccional e polifônico para um diálogo de múltiplas vozes. E, principalmente, para os corpos que transitam na margem”, completa Cíntia Ribeiro.

De acordo com os organizadores, o livro não tem a pretensão de fazer da história, nele relatada, a única e definitiva das lutas LGBTQIA+ no Estado. “Trata-se, de uma obra, ou melhor, de um projeto de registro, conservação e divulgação de trajetórias e memórias esquecidas, e/ou pouco conhecidas; de um convite à escrita da história de acontecimentos e personagens ainda invisibilizados/as; de uma homenagem àqueles/as que foram violentados/as pela LGBTQIfobia; de uma celebração aos/às que lutaram, resistiram e conquistaram espaços, direitos; por fim, de um chamado aos órgãos públicos para a urgente e necessária criação de políticas públicas de preservação, conservação e divulgação dos acervos institucionais e pessoais das lutas LGBTQIA+ em Alagoas”, diz nota conjunta dos autores.

DIA INTERNACIONAL DO ORGULHO

Os organizadores anunciam o projeto nesta terça-feira (28), quando é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. O data remonta à Rebelião de Stonewall Inn, que ocorreu em 28 de junho de 1969. Na época, houve uma revolta contra invasões da polícia de Nova York a bares que eram frequentados por gays, que sofriam diversas violências praticadas pelas autoridades locais.

Na ocasião, policiais entraram no local e prenderam funcionários e frequentadores, além de agredi-los. A truculência gratuita resultou em uma série de protestos em cidades norte-americanas, a favor dos direitos LGBTQIA+. No ano seguinte, em 1970, ocorreu a 1ª Parada do Orgulho Gay em Nova York.

A Revolta de Stonewall Inn é tida como o “marco zero” do movimento de igualdade civil dos homossexuais no século XX.

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