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Cidades

DEMORA PARA IMPLANTaR MEDIDAS LEVOU AO AVANÇO DA PANDEMIA

Especialistas dizem que, apesar de ter tido tempo de se preparar, Brasil não adotou os procedimentos preventivos no tempo certo

Por regina carvalho | Edição do dia 08/08/2020

Matéria atualizada em 07/08/2020 às 22h03

| Ascom

Passados mais de seis meses desde que a Organização Mundial de Saúde declarou que o surto pelo novo coronavírus constitui uma emergência de saúde pública e mais de cinco meses após confirmação do primeiro caso da doença no Brasil, profissionais que atuam em pesquisas e no combate à pandemia analisam os avanços e desafios frente à doença. A Gazeta ouviu um pesquisador da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), uma médica infectologista e um enfermeiro sobre o tema. Para o professor Gabriel Bádue, do Observatório Alagoano de Políticas Públicas para o Enfrentamento da Covid-19, vinculado à Faculdade de Nutrição da Ufal, observa-se um descontrole da transmissão do novo coronavírus no País. “A cada semana epidemiológica apresentamos um aumento no número de novos casos. Em que pese a ausência de uma política nacional de testagem que deveria ser direcionada pelo Ministério da Saúde e da subnotificação de casos e óbitos, que, entre as evidências disponíveis pode ser verificada por meio da notificação atípica de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), registramos aproximadamente três milhões de casos e cem mil óbitos”, avalia. De acordo com Bádue, em Alagoas, apesar de a curva de novos casos ter apresentado uma tendência de queda ao longo de julho, o que fez reduzir o número de casos graves e óbitos, nas duas últimas semanas epidemiológicas do referido mês voltamos a registrar um aumento dessas notificações, respectivamente de 4% e 22%, que fizeram com que o número de novos casos na 31ª semana voltasse a superar a marca de seis mil. “A distribuição desses casos ao longo do território alagoano reforça essa instabilidade, já que regiões que até então apresentavam indícios de controle e avançaram de fase no modelo de distanciamento controlado adotado pelo governo do Estado tiveram expressivos aumentos. Um exemplo é o caso da segunda região de Saúde, que abrange os municípios do litoral Norte, em que o número de novos casos quadruplicaram em relação ao período anterior”, explica. A médica infectologista Sarah Dominique avalia a resposta à doença no Brasil como “um pouco comprometedora e, de certa maneira, até insatisfatória”, porque a quantidade de mortes segue muito elevada. “O país teve tempo de se preparar, uma vez que a pandemia já se anunciava no mês de janeiro. Então, os hospitais de campanha foram feitos muito tardiamente em grandes estados, como no Rio de Janeiro. E não foi decretado o lockdown como deveria, de maneira federal, ao manter, dessa forma, o Carnaval, feiras, eventos, ainda no mês de fevereiro e março, quando a Europa já anunciava casos”. Na opinião de Sarah, o governo federal não se antecipou com as medidas preventivas. “Em Alagoas, estávamos nos preparando em reuniões mensais, desde 31 de janeiro, muito antes do governo federal. Dessa forma, os hospitais públicos e privados conseguiram arquitetar-se do ponto de vista físico, inclusive até com a criação de hospitais de campanha. Foram criadas novas terapias intensivas, novos ambientes de UTI, dentro de centros cirúrgicos”. De acordo com Sarah, que atua como gerente-médica do Hospital de Mulher, unidade referência no tratamento da Covid, Alagoas conseguiu se preparar nas duas esferas e está conseguindo dar esse suporte à população de maneira mais justa. “A resposta se mostra através disto: no quarto mês de pandemia, temos um decréscimo das internações e eu tenho batido na tecla de que isso se deu muito em relação à assistência multidisciplinar de maneira mais assertiva. Isso porque, os profissionais já adquiriram mais experiência com esses meses de pandemia. Alagoas está indo muito bem no controle da Covid-19 e no manejo dos pacientes”, afirma.

SEM DESCUIDOS

Sobre a resposta à doença no Brasil e em Alagoas, Paulo Guimarães, enfermeiro do Hospital da Mulher e auxiliar de enfermagem do HGE, avalia que muitos casos do novo coronavírus poderiam ter sido evitados. “A doença se espalhou rapidamente, como é sua característica. Acredito que em Alagoas muita gente ainda não se cuida direito, o que pode ter intensificado a transmissão. Sei que é difícil ter o equilíbrio entre a economia e o controle da doença, mas é importante tomar cuidado em todos os aspectos”. Paulo diz que lições podem ser tiradas dessa tragédia. “Aprendemos e vimos que o mais importante está nas pequenas coisas, nos pequenos atos”. Sobre a quantidade de infectados, mortos e curados até agora em Alagoas, o enfermeiro acrescenta que o número de mortos está diminuindo e as UTIs não estão mais lotadas, mas o número de casos ainda é muito alto e requer cuidados.

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