Gazeta de Alagoas
Pesquise na Gazeta
Maceió,
Nº 0
Maré

QUERO MINHA VIDA DE VOLTA

Setembro Amarelo também lança seu olhar sobre a dependência química e sua contribuição para a depressão e outros problemas

Por EVERTON LESSA ESPECIAL PARA A REVISTA MARÉ | Edição do dia 25/09/2021

Matéria atualizada em 22/09/2021 às 21h39

Estudos apontam que dependentes químicos têm maior probabilidade de desenvolver depressão. Esse assunto acende o alerta e traz à tona a necessidade de falar sobre isso. Em 2020, o SUS (Sistema Único de Saúde) registrou um aumento de 54% no atendimento de dependentes químicos, num momento em que o isolamento social pode ter potencializado o consumo de drogas. A Revista Maré entrevistou Uranio Paiva Melo, médico cirurgião, responsável por uma clínica que trata dependentes químicos em Paripueira – AL. Ele explica que as substâncias psicoativas atingem o metabolismo do cérebro e alteram as informações cerebrais. “O indivíduo começa a se comportar de maneira inadequada, por perder o senso da realidade externa. E também há efeitos orgânicos, o corpo sente o impacto. O organismo se prepara para tentar se depender dos efeitos causados pelas substâncias que não fazem parte do corpo”. Ele pontua que é importante o paciente iniciar o tratamento numa clínica para se livrar de substâncias, já que haverá períodos de abstinência, para que seja trabalhado então o processo de abandono da dependência química. O tratamento exige a participação de vários profissionais da saúde, por afetar todo o corpo. É necessário acompanhamento de: médicos, enfermeiras, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, educadores físicos e terapeutas ocupacionais. Uranio alerta que a família adoece também, o que é chamado de codependência. “Muitas vezes o problema é muito mais grave na família do que no dependente químico. A família adoece devido à mudança de comportamento do indivíduo que se relaciona com essas substâncias e acaba interferindo na realidade do convívio deles”, conta. Existem três tipos de internação, sendo: voluntário – quando o indivíduo reconhece que precisa do tratamento; o involuntário – quando a família decide internar o dependente por colocar em risco sua integridade física ou dos familiares; e o compulsório – quando a justiça determina a internação baseada em algum ato do indivíduo. “Esse problema é grave, merece atenção, é cada vez mais comum em nossa sociedade. Tem aumentado devido à ausência social nas relações. É uma doença que tem tratamento, existe tratamento e índices altos de eficácia em muitos casos de dependentes químicos que buscaram ajuda”, finaliza. A Revista Maré também ouviu indivíduos que enfrentaram problemas com a dependência química e atualmente se encontram limpos. Leia os relatos: Leandro de Albuquerque Ferro - Livre da dependência química há 12 anos, Leandro é filho de Uranio Paiva. Foi ao lidar com a situação vivenciada dentro de sua casa que o médico decidiu abrir um espaço para tratar os dependentes químicos. Leandro relata que o uso descontrolado de substâncias psicoativas fez com que ele necessitasse de tratamento. “Minha paz, minha família, filhos e esposa, essa harmonia me traz sentimentos inexplicáveis, é extremamente extraordinário viver na paz de Deus”, conta Leandro ao falar sobre o que motiva ele a seguir sem utilizar química há mais de uma década. F.L. - Prefere não se identificar, mas está sem usar substâncias químicas há oito anos. “Já não aguentava mais tanto sofrimento em minha vida com o uso abusivo de cocaína. Passei a ser escravo da droga, estava usando todos os dias. Pedi ajuda para minha esposa para minha internação. Consegui de volta o amor da minha família. Hoje sou um verdadeiro pai. Frequento grupos anônimos, isso me ajuda muito na minha recuperação, na verdade consigo me espiritualizar através das reuniões que frequento”. Thiago da Silva - Limpo há 11 anos, relembra que seu uso abusivo de substâncias psicoativas e psicotrópicas forçaram sua internação. “O desejo de viver limpo e trabalhar com essa realidade, na clínica, ajudando outros dependentes, também me ajuda muito a continuar sóbrio”, conta o profissional, que, atualmente, se dedica ao tratamento de outros dependentes químicos.

Mais matérias desta edição