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OPINIÃO

Revolucionários, reacionários e conservadores

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Por Marcos Davi Melo - médico e membro da AAL e do IHGA | Edição do dia 24/07/2021

Matéria atualizada em 23/07/2021 às 18h10

Somos conservadores em relação ao que estimamos, família, amores, amigos, lugares, livros, memórias, filmes. Conservar e desfrutar são dois verbos caros aos que estimam alguma coisa. Atravessamos uma das fases mais turbulentas da história nacional. Além da pandemia de Covid-19, que já eliminou 550 mil brasileiros, temos um clima de instabilidade política como desde a redemocratização não se observava, com ameaças de obstrução das eleições, ameaças às urnas eletrônicas baseadas em fake news, ameaças de intervenção militar, de fechamento do STF e do Congresso. Para um país de democracia recente e marcado historicamente por ditaduras como o Brasil, o pensamento conservador costumava ser associado ao autoritarismo e à supressão das liberdades individuais. Em sua obra “As Ideias Conservadoras, Explicadas para Revolucionários e Reacionários”, João Pereira Coutinho analisa o pensamento conservador desde a sua fundação pelo irlandês Edmund Burque ( 1729-1797) e de outros pensadores conservadores. O que é o conservadorismo?

Edmund Burque afirmava que o conservador admitia a imperfeição humana, o pluralismo de valores, a tradição, a reforma e a sociedade comercial. O conservador seria humilde, prudente, encararia a realidade como ela é, não como gostaria que fosse. O conservador não seria fatalista nem pessimista, usaria a moderação, o ceticismo e a Força Moral. Repudiaria mudanças repentinas. Abominaria os males do radicalismo revolucionário e dos extremismos do reacionarismo. O conservador se orgulha de não ter sangue nas mãos. Rejeita totalmente soluções disruptivas como golpes e intervenções militares em uma democracia.

Regimes revolucionários como os da Revolução Francesa e da Soviética, ou reacionários como o Fascismo e o Nazismo, que prometiam um mundo perfeito, mas derivaram para a violência, para o extermínio dos adversários e para a tirania. Os reacionários (uma excrescência do conservadorismo) querem regressar a um paraíso perdido, que aos seus olhos nostálgicos, mesmo nunca tendo existido, seria perfeito. Revolucionários e reacionários usam a violência para alcançar seus objetivos. Os reacionários querem utilizar os militares para dar um golpe no Brasil? E depois? Os EUA, a Comunidade Europeia e nações desenvolvidas reconheceriam esse governo golpista? O golpe pretende impedir as investigações da CPI? Ou essa desordem serve aos reacionários para tumultuar e inviabilizar as eleições de 2022, ao modelo de Trump? O que está ruim sempre pode piorar. O conservador preserva as instituições, busca aprimorá-las, respeita e valoriza a imprensa livre, sempre um alvo preferencial de revolucionários e de reacionários. O conservador abomina essa dilapidação que se promove na democracia brasileira, ele venera a estabilidade e repudia retrocessos.

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